"Esta desgraça pode tornar-se numa oportunidade de crescimento. É como alguém que semeia aquela semente que serviria de comida: parece que a está a desperdiçar", por lançá-la à terra, mas "aquilo é o início de uma vida nova".

"Podemos sair deste acontecimento tão triste, tão devastador, com renovadas energias. Pode ser um momento de renascimento", referiu o arcebispo católico.

Contudo, alertou, é preciso ajudar a população a melhorar a qualidade das habitações, construindo estruturas mais seguras.

"Construir tendo presente a experiência de outros países que passam por estas calamidades naturais", disse, reclamando a aposta numa "reconstrução inteligente", por oposição às construções precárias habituais.

Chapas e barrotes de madeira, adobe e capim - ou blocos quando financeiramente é possível -, com alguma mistura de cimento, são os materiais de construção mais comuns.

Apesar do vendaval e das cheias, os residentes nas províncias de Sofala e Manica tentam regressar às suas terras reconstruindo com a mesma fórmula, mesmo sabendo que novas tempestades se podem formar.

A prioridade é fazer renascer as hortas para terem comida e têm contado à Lusa que estão a tentar reconstruir as casas, no prazo de uma ou duas semanas, com aqueles materiais precários.

A pobreza condiciona as opções dos residentes, nota Claudio Dalla Zuana.

"Isto [ciclone Idai] pode voltar a acontecer. Podem ser sinais claros das mudanças climáticas no planeta. Este ciclone foi muito diferente de outros porque se formou aqui, no Canal de Moçambique", entre a costa e a ilha de Madagáscar, "e não no oceano aberto".

E mesmo formando-se no canal, "conseguiu chegar a esta intensidade", recordou, numa alusão à categoria dois a três do Idai, numa escala de um a cinco, sendo cinco a mais grave.

"É um sinal grave" para uma população que "sofre todos os dias", mas cujo sofrimento só é mais visível no resto do mundo em acontecimentos como o ciclone Idai, referiu o arcebispo.

"A vida é muito difícil. A maioria das pessoas não tem nenhuma fonte de sustento, não há trabalho. O salário mínimo, para quem tem a sorte de ter um trabalho, é de cerca de 80 euros. Com isto não se pode viver, nem fazer grandes coisas" como "colocar os filhos a estudar", admite.

"São poucos os que têm a sorte de ter um trabalho fixo remunerado" por entre uma população "acostumada a sofrer", aponta o arcebispo da Beira.

O ciclone Idai, que atingiu Moçambique a 14 de março, foi "um sofrimento de vasta escala que abrangeu muita gente em poucas horas. Porém, cada pessoa tenta reagir com uma capacidade de resiliência que geralmente toda a África tem" e que deriva de um contexto de permanente "vida difícil".

Resiliência valorizada por Claudio Dalla Zuana, em oposição ao fatalismo.

A população não se deixa "levar pelo desespero, por muito grandes que possam ser as dificuldades".

"O Instituto de Meteorologia deu alertas, mas o povo não podia fazer nada para proteger as suas casas. Não se pode travar o vento com as mãos e com a precariedade das casas, das estruturas, não havia muito a fazer", conta, referindo-se aos dias que antecederam a tempestade.

Aos mortos, cuja contagem oficial vai em cerca de 600, em Moçambique, sobretudo arrastados pelas cheias, falta muitas vezes uma sepultura digna, mas também, nestes momentos, "a força da solidariedade ajuda a dar dignidade", não só entre familiares, mas também entre vizinhos que se apoiam na preparação de cerimónias fúnebres.

"Não vi sinais de desespero entre as pessoas. Sentem muita tristeza com o que aconteceu, mas não há desespero. Há o desejo de recomeçar".

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