"Parece-me que o caso não está ainda encerrado uma vez que esta decisão também é passível de recurso e, portanto, muito mais argumentos serão esgrimidos", referiu Fernando Lima, presidente do grupo de comunicação social Mediacoop.

A decisão não surpreende, sublinhou, considerando a história político-partidária que envolve Moçambique e a África do Sul.

"Estritamente pelo lado político da questão, outra decisão não era de esperar", mesmo tendo em conta a existência de "um tratado de extradição entre a África do Sul e os EUA" que pode ser um "elemento legal forte".

Fernando Lima realça o facto de o executivo sul-africano ser liderado pelo Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla inglesa), "formação política com grandes ligações ao Governo de Moçambique" e que, por outro lado, Maputo, "sem sequer ser muito discreto claramente tomou várias iniciativas dando a entender ao Governo da África do Sul que o seu ex-ministro das Finanças devia ir para o país de origem".

O analista recorda ainda a declaração "algo grosseira" de Lindiwe Sisulo, ministra das Relações Internacionais e Cooperação sul-africana, que em já Fevereiro anunciara a extradição de Chang para Moçambique - sendo prontamente desmentida por um porta-voz do Governo garantindo que só haveria decisão após o processo judicial.

No entanto, hoje fica a sensação de que Sisulo deixou que lhe fugisse "a boca para a verdade ou para as suas inclinações políticas", concluiu Fernando Lima.

Borges Nhamire, analista do Centro de Integridade Pública (CIP), ONG moçambicana que tem acompanhado o caso na África do Sul, disse à Lusa que a organização acredita que esta não vai ser "a decisão final".

"Esperamos que os EUA recorram, porque o podem fazer" e que Manuel Chang seja entregue à justiça norte-americana, referiu.

O CIP "está claramente contra a extradição de Chang para Moçambique", onde "nada lhe acontecia, até que os americanos emitiram o mandado de prisão".

"Acreditamos que é importante que seja julgado nos EUA para que mais informação venha a público. A Justiça moçambicana ou não tem capacidade ou interesse em esclarecer o caso", concluiu.

O tema está a suscitar comentários nas redes sociais na Internet.

"Camaradas acima da justiça, lei e interesse público", escreve Adriano Nuvunga, activista anti-corrupção, ex-director do CIP e agora líder da ONG Associação Desenvolvimento e Sociedade (ADS).

Numa mensagem pública na rede Twitter, acrescenta que "o ANC e Cyril Rampahosa, Presidente sul-africano, salvaram a Frelimo".

“Eu decidi que o acusado, o senhor Manuel Chang, será extraditado para enfrentar julgamento pelos seus alegados crimes em Moçambique”, disse ontemo ministro da Justiça e Serviços Correcionais da África do Sul, Michael Masutha, citado num comunicado hoje divulgado pelo Ministério da Justiça e Desenvolvimento Constitucional.

De acordo com a mesma nota, o governante sul-africano teve em conta que “o acusado é cidadão da República de Moçambique”, que “o alegado crime foi cometido enquanto ele era ministro de Estado” moçambicano e que a “dívida onerosa para Moçambique resultou da alegada fraude”.

Por outro lado, o Governo sul-africano teve ainda em consideração a “submissão feita pelo senhor Chang para ser extraditado para o seu país natal”, o “interesse dos Estados [Estados Unidos da América e Moçambique] envolvidos” e a “seriedade do alegado crime”.

O ex-ministro das Finanças moçambicano Manuel Chang, três ex-banqueiros do Credit Suisse e um mediador da Privinvest foram detidos em dezembro a pedido da justiça norte-americana.

A investigação alega que a operação de financiamento de 2,2 mil milhões de dólares para criar as empresas públicas moçambicanas Ematum, Proindicus e MAM durante o mandato do Presidente Armando Guebuza é um vasto caso de corrupção e branqueamento de capitais.

Em Fevereiro, só depois da acção dos EUA, foram detidas várias figuras públicas pela justiça moçambicana - entre as quais pessoas próximas do ex-chefe de Estado Guebuza - que tinha o caso aberto desde 2015, mas sem nenhuma detenção.

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