O angolano Inocêncio Chari veio para a Alemanha em 1988, como trabalhador contratado da extinta República Democrática da Alemanha (RDA). Recorda-se de uma vida tranquila, sem medo do racismo.

"Na época da RDA, foi uma coisa que nós praticamente não vivemos, porque o cidadão era controlado pelo Estado," lembra.

"Era difícil eles [os racistas] mostrarem-se como se mostram hoje e, depois da reunificação, aquilo foi como se fosse uma manada de vacas que está solta e não sabe qual o caminho a seguir," avalia.

Ataques nos anos 90

Mas quem estava na Alemanha nos anos 90, carrega consigo uma parte pesada da história do país. Logo após a queda do Muro de Berlim, começou uma época em que as residências de ex-trabalhadores convidados da extinta RDA sofreram ataques racistas. Algo que o moçambicano Bartolomeu Suela também viveu.

"Eu tinha amigos diretos cujas residências foram invadidas na primeira vez em Hoyerswerda. Tinha cerca de oito ou mais amigos que viviam naquele lar que foi invadido. Aconteceu também em Berlim Hellersdorf, onde eu estive," conta.

"Quiseram-nos invadir, mas já tivemos um cuidado, avisámos a polícia antes e foram travados antes de chegar ao lar," descreve o moçambicano.

Robert Lüdecke, porta-voz da Fundação Amadeu António, em Berlim, que tem o combate ao racismo em foco, explica o que se passava neste período:

"Os neonazis e extremistas de direita tinham uma imagem clara sobre onde queriam chegar com a nova sociedade alemã – nomeadamente um Estado nacionalista, etnicamente branco e autoritário. Encontraram no leste um solo fértil e esta é a razão pela qual houve, logo nos primeiros anos após a reunificação, distúrbios massivos e violentos em muitas partes da antiga RDA," afirma.

Houve então reações por parte do Governo que estabeleceu limites claros. A esta fase seguiu-se um período mais calmo.

Racismo sofisticado

Entretanto, observa-se um novo aumento do racismo nos últimos anos. Bartolomeu está preocupado.

"O racismo de hoje é mais perigoso porque, antigamente, eles tentavam manifestar abertamente e era fácil também para combater. Mas agora, o racismo de hoje é mais diplomático e ao nível político," diz.

O apoio por parte de partidos políticos alemães, que colocam a presença dos estrangeiros como a causa de um problema social a ser resolvido, só piora a situação, considera Inocêncio.

"Quando aparece algum político que quer usar aquela possibilidade daquela pessoa o seguir, aquilo fica mais grave porque ele sente-se protegido também. Fazem o racismo a contar com a proteção política, a bem dizer," avalia.

Por este motivo, a organização de Robert Lüdecke luta contra a ideologia do partido de extrema-direita do partido Alternativa para a Alemanha (AfD).

"O racismo sempre existiu. A radicalização individual não mudou, mas sim a social. Temos agora uma sociedade na qual essas opiniões podem novamente ser expressadas, na qual o limite não está mais claro," diz Lüdecke.

Mais benefícios que problemas

A situação faz com que os estrangeiros se voltem a sentir ameaçados. Bartolomeu descreve esse sentimento.

"Estou com medo e estou assustado porque tenho um filho que tem raça mista e, para o futuro dele, não estou a ver bem, se chegar esse tipo de partido no poder. O meu medo não é pessoal. O meu medo é geral de que o país em si venha a cair num sistema descontrolado," diz.

Ainda assim, o moçambicano e o angolano consideram que a queda do Muro de Berlim trouxe benefícios que o racismo não é capaz de ofuscar, defende Inocêncio.

"Tenho direito de expressão. Aqui na Alemanha, tenho mais direitos que no meu país de origem. Pela forma como vim para a Alemanha, se não fosse a reunificação, eu nem sequer teria uma profissão," conclui o angolano.

Autor: Cristiane Vieira Teixeira (Berlim)

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