Nunca Moçambique tinha sido atingido por dois ciclones de tão elevado grau de destruição na mesma época chuvosa, que se inicia em novembro e vai até abril do ano seguinte - de tal forma que ainda não está recuperado.

No verão do hemisfério sul, o país apresenta zonas de seca extrema, a costa tem sinais de erosão muito acentuada e é ponto de passagem dos ciclones do oceano Índico.

O ciclone Idai atingiu a cidade da Beira a 15 de março, deixando de rastos - e sem comunicações durante uma semana - aquela que historicamente é considerada a segunda cidade mais importante do país, com meio milhão de habitantes e onde a maioria já vivia em situação precária.

Mas o pior estava para acontecer no dia seguinte: a chuva intensa entrou pelo coração de Moçambique, já saturado de água, e criou lagos que perduraram durante semanas, arrastando tudo e provocando centenas mortes por afogamento.

Poucas semanas depois, a 25 de abril, o ciclone Kenneth, mais furioso do que o Idai, abateu-se sobre a província de Cabo Delgado e, apesar de ser uma região menos povoada, 45 pessoas morreram.

O Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) e agências humanitárias estimam que 2,2 milhões de pessoas tenham sido de alguma forma afetadas e que, destas, cerca de meio milhão tentem recomeçar a vida e enfrentar uma nova época de chuvas em locais destruídos ou danificados.

Cerca de 70.000 permanecem em centros de acomodação de emergência, que, aos poucos, se vão transformando em novas povoações permanentes.

Ajuda de emergência está a ser prestada pela comunidade internacional, mas as Nações Unidas fizeram há dois meses um apelo adicional de 362,8 milhões de euros.

Doenças e insegurança alimentar estão entre os principais riscos a cobrir.

Outras obras a médio e longo prazo, incluindo em infraestruturas, deverão entretanto avançar ao longo dos próximos dois anos, depois de vários doadores (países e organizações) terem prometido 1,2 mil milhões de dólares para reconstrução.

O país parece estar mais alerta nesta época das chuvas.

A formação da primeira depressão tropical da época ciclónica foi acompanhada com atenção na última semana de novembro, de tal forma que as autoridades lançaram alertas mesmo antes de a tempestade se formar e de saber para onde ia.

Não atingiu Moçambique, mas nem foi preciso: bastaram as chuvas intensas do primeiro fim de semana de dezembro para alagar novamente partes da cidade da Beira.

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