Página gerada às 15:36h, quinta-feira 17 de Agosto

Parque da Gorongosa é exemplo a seguir, diz estudo publicado na conceituada Nature

11 de Agosto de 2017, 09:20

Um estudo, publicado em Junho na conceituada revista científica Nature, destaca o Parque Nacional da Gorongosa enquanto bom exemplo de como os ecossistemas degradados podem ser reabilitados e ajudar economicamente as populações envolventes. Contudo, o autor do artigo deixa um aviso: o parque precisa de crescer em tamanho e não depender tanto de doações.


Subfinanciadas, mal geridas e danificadas a nível ecológico, cenário que tem piorado nos últimos 20 a 30 anos. Eis o pouco animador retrato que o biólogo norte-americano Robert Pringle, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, faz de muitas das áreas protegidas que existem pelo mundo fora, seja em países ricos ou pobres, tornando-as, assim, incapazes de impedir a perda de biodiversidade no planeta e a extinção em massa de várias espécies animais.

Se quisermos pensar, em primeiro lugar, no que as populações humanas podem estar a perder, o investigador norte-americano relembra, no artigo da Nature, que “há indícios crescentes que as áreas protegidas reduzem frequentemente a pobreza e aumentam o bem-estar das populações rurais”, quanto mais não seja porque o “turismo baseado na natureza surgiu como uma fonte dominante de divisas, fortalecendo as economias nacionais”.

Mas, afinal, o que viu ele no Parque Nacional da Gorongosa (PNG) que possa servir de exemplo para outras áreas protegidas? Antes de mais, Pringle começa por criticar o que chama de “parques de papel”, ou seja, zonas naturais que estão salvaguardadas na lei e nos mapas, mas depois, na prática, não estão. Não é o caso, todavia, do PNG, assim como da Área de Conservación Guanacaste, o outro parque, situado no Noroeste da Costa Rica, que o biólogo analisou.

Criado em 1960, o grande parque natural de Moçambique estende-se, actualmente, por 3.700 quilómetros quadrados, tendo sofrido um rude golpe durante a guerra civil, quando mais de 90% dos grandes mamíferos foram exterminados. Contudo, a vida selvagem começou a recuperar desde 2004, quando entrou em marcha o Projecto Gorongosa, com o objectivo de o reabilitar e “transformá-lo num motor de desenvolvimento humano e económico”, salienta Pringle.

Foi assim que, em 2016, a biomassa total dos grandes mamíferos chegou a 80% do total de antes da guerra. Dos grandes carnívoros, o leão, com 65 indivíduos, é a única espécie residente no parque, mas os outros predadores superiores, “cruciais para o funcionamento do ecossistema”, permanecem “localmente extintos”. Já os mamíferos grandes, como os búfalos, os gnus, os elandes, os elefantes e os hipopótamos estão a ver as suas populações aumentar, contribuindo para uma maior diversidade genética.

Para as comunidades locais de pessoas, nomeadamente os 175 mil residentes na zona tampão de 5.400 quilómetros quadrados que rodeia a reserva, os números existentes atestam o que quanto têm vindo a ganhar com o rejuvenescimento da Gorongosa. De acordo com o artigo da Nature, “mais de 85% dos 500 funcionários permanentes do parque, e todos os seus 60 a 100 funcionários temporários, são recrutados localmente”. Mais: o Projecto Gorongosa apoiou a construção de quatro escolas, garante o transporte e refeições a mais de 2.500 crianças, tendo ainda ajudado à vacinação, em 2016, de 4.900 crianças, a que se junta a “assistência agrícola e agro-florestal a cerca de 4.000 pequenos proprietários” da zona tampão.

Agricultores e caçadores furtivos ainda são um problema

O PNG conta, neste momento, com um orçamento de nove milhões de dólares (cerca de 550 milhões de meticais), proveniente de um grupo de doadores, mas o existente acordo de co-gestão entre o Governo de Moçambique e a Fundação Gregory C. Carr prevê uma transição para um modelo financeiro auto-sustentável que assenta no turismo de natureza.


O problema é que existe toda uma lista de ameaças que podem colocar em causa esta ideia de longo-prazo: “armadilhas ilegais que ameaçam populações da vida selvagem”, assim como os “actuais e futuros conflitos entre a vida humana e a fauna selvagem”, a exemplo do que sucede entre os agricultores locais e os elefantes que invadem as culturas, estão entre os problemas a resolver.

Robert Pringle sabe do que fala, pois, além do trabalho enquanto biólogo, também integra o Conselho de Administração do Projecto Gorongosa. A recuperação a que os dois parques naturais foram submetidos, o de Moçambique e o da Costa Rica, e o exemplo que constituem, levaram-no a estabelecer, para o artigo da Nature, oito princípios gerais que podem ser usados por zonas de conservação de outros países.

Antes de mais, defende a necessidade dos parques protegerem os refúgios ecológicos que ainda subsistem dentro das suas fronteiras, pois quanto maior forem as perdas de diferentes espécies originais, mais lenta será a recuperação das reservas. No caso do PNG, “o restabelecimento de uma presença humana protectora e a supressão da caça ilegal”, marcaram o ponto de partida para a sua restauração, com o ressurgimento da vida selvagem a ser impulsionado pelo crescimento natural de algumas e determinadas espécies.

Dar à Gorongosa mais de 200 quilómetros de terra

O aumento do território deve ser outro dos objectivos a atingir. A intenção de ligar o Parque da Gorongosa à Reserva Nacional de Marromeu, através da incorporação de uma das faixas de território que os separa, vai abrir a porta, por exemplo, a “uma área protegida que se estende mais de 200 quilómetros desde os mangais do oceano Índico às encostas ocidentais do Monte Gorongosa”. Este aumento permitirá o fluxo entre diferentes ecossistemas, com destaque para os costeiros.

Em terceiro lugar, refere Pringle, todos os projectos devem ser pensados para o longo-prazo, algo que só será possível ser forem contratadas pessoas que vivam na região, em vez de depender de contribuidores externos que tendem a não ficar muito tempo no mesmo lugar.

As áreas protegidas têm, igualmente, de contribuir para o bem-estar da população local. Daí que as pessoas que vivem na zona tampão do PNG terem acesso ao parque, sendo-lhes oferecida “extensão agrícola e cuidados de saúde”.


O recurso a “estratégias financeiras criativas” devem também ser estimuladas, esperando-se que, a prazo, as taxas cobradas ao sector privado do turismo venham a constituir a maior parte do orçamento do PNG. As parcerias público-privadas para a “co-gestão de áreas protegidas” são outra alternativa, embora haja sempre o perigo de “abusos extralegais” por parte da entidade privada ou uma renúncia às suas responsabilidades pelo Estado.

Conhecer a biodiversidade da zona protegida é outro dos passos que o biólogo dos Estados Unidos recomenda que seja dado. Isto porque “uma área protegida sem um inventário das suas espécies residentes é como uma biblioteca sem um catálogo”, exemplifica.

Por fim, a capacidade de adaptação, pelos gestores das áreas protegidas, a variadas e modernas linhas de pensamento sobre a conservação, tal como a necessidade de envolver e estimular a população mais jovem, para estimular desde cedo o interesse pela conservação, são duas das lições a aprender com o Parque da Nacional da Gorongosa e a reserva natural da Costa Rica.

João Pedro Lobato


Comentários

Critério de publicação de comentários