Página gerada às 21:02h, sabado 24 de Junho

Contos para despertar adultos e crianças

01 de Junho de 2012, 12:20

"Contar histórias num palco em Moçambique é um mundo por descobrir" considera o peruano Rafo Diaz, contador de histórias há 15 anos e residente em Maputo há quatro.

Aprendeu a contar histórias nos convívios familiares,o facto de ser natural do Peru fez com que as lendas e contos apresentados pelo pai e pela avó fossem sempre "amazônicas", quer dizer, relativas a vivências na Amazônia.

Quando decidiu viver em Moçambique trouxe na bagagem várias histórias tradicionais do seu povo e algumas criadas por si, mas, rapidamente apaixonou-se pelo legado cultural moçambicano. "Não me decepcionei com este país, encontrei contos fantásticos, mesmo porque a oralidade também é tradição aqui, as familias contam-se histórias em linguas locais e todos aprendem com isso, para além de, as minhas pesquisas terem me conduzido a grandes escritores nacionais como Paulina Chiziane, Mia Couto, Ungulani Baka Khosa e outros"

Sobre a natureza dos contos africanos, o contador de histórias, afirmou o seguinte: "os contos moçambicanos e africanos em geral têm o objectivo de ensinar alguma coisa, são baseados na sabedoria comunitária e visam levar as pessoas a tomarem uma atitude para o bem geral de uma sociedade, logo não se pode dizer que as histórias são somente para crianças".

Para Rafo Diaz, apesar do problema de fraco hábito de leitura e alguns casos de analfabetismo, as crianças moçambicanas são muito curiosas, gostam de ouvir e percebem muito bem as histórias. As crianças desenvolvem a imaginação, ganham gosto pela leitura, viajam no mundo da fantasia, conhecem coisas novas e tornam-se mais atentas quando ouvem histórias, não importa se elas são ficticias ou reais, o essencial é acreditar na história, acreditar que os factos relatados acontecem ou aconteceram e daí tirar proveito.

Os contos africanos não têm ainda o mesmo nível de divulgação que os dos povos ocidentais, mas estes não deixam de ser ricos em conteúdo. Até à data só o "Kirikou", conto senegalês, é que ultrapassou barreiras internacionais, sendo divulgado em livros e em desenho animado.

Ao se aperceber que as histórias do Peru e as de Moçambique têm aspectos comuns como mitologias, tradições e elementos sobrenaturais, Diaz decidiu fazer "fusões", enriquecidas por toques de criatividade, adquirida com as experiências que acumula.

O maior desafio deste contador de histórias é incluir esta arte nas agendas culturais de Maputo. Para tal, está a criar um grupo de contadores de histórias com o apoio da UEM e das oficinas culturais.

 Actualmente tem o projecto "Livro Amigo", que visa promover a leitura nos bairros periféricos e escolas de Maputo com pouco acesso a actividades lúdicas e educativas. 

Uma das apresentações previstas para o mês da criança é "Liliana conta seus medos", que narra a história de ‘’Liliana Fantoches’’ , uma menina de 7 anos, cuja mãe tem de viajar para Inhambane, e por isso, a menina fica em casa com a tia Carlota. A tia Carlota julga que todas as crianças têm de ser gordas para serem saudáveis. Como Liliana não come muito e é magra, ela enfrenta a tia e os medos evocados para a assustar e obrigá-la a comer. O espectáculo tem a participação dos músicos Kathleen Boon e Alvaro Benedicto.

"Os contos não são para adormecer as crianças, são para despertar os adultos" conclui Rafo Diaz citando um autor desconhecido.

@Benilde Matsinhe

SAPO

Relacionados:

+ Ontem e hoje, as histórias mudam tal como as brincadeiras

+ O que mudaria no Mundo?



Comentários

Critério de publicação de comentários