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Comunidade judaica em Cabo Verde diluiu-se com o tempo, mas deixou marcas (C/ÁUDIO)

03 de Maio de 2013, 17:24

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Cidade da Praia, 03 mai (Lusa) - A herança judaica em Cabo Verde foi relevada numa "cerimónia de rededicação" dos 10 túmulos de judeus existentes no cemitério da Cidade da Praia, ato "simbólico para "honrar" uma comunidade já inexistente, mas que deixou marcas no arquipélago.

A cerimónia decorreu quinta-feira à tarde no cemitério da Várzea, na capital cabo-verdiana, na presença de uma delegação internacional de judeus de Portugal e dos Estados Unidos, integrada no Projeto da Herança Judaica em Cabo Verde, liderado por Carol Castiel, jornalista norte-americana da Voz da América (VOA).

Em Cabo Verde, explicou Carol Castiel, existem entre 35 a 40 túmulos de judeus sefarditas espalhados pelas ilhas de Santiago, Santo Antão e Boavista, que chegaram ao arquipélago oriundos de Marrocos e de Gibraltar após o fim da Inquisição, em 1820.

Na Cidade da Praia, a "rededicação" permitiu a restauração de 10 campas e a sua junção no centro do cemitério, a primeira de uma série de quatro, que se estenderão, ainda este ano, a outra cerimónia na Boavista e mais duas em Santo Antão.

Questionada pela agência Lusa sobre que influência teve no arquipélago cabo-verdiano o grupo de judeus oriundos de Tanger, Tetuão, Rabat, Mogadoro (atual Essaouira) e de Gibraltar, Carol Castiel salientou ser difícil medi-la, mas que, garantidamente, foi grande, se comparada com o número dos que vieram.

"A influência é difícil de medir, mas o certo é que tiveram uma influência bem maior do que o número diria. Eram poucos em número, mas a influência foi grande, no comércio, na navegação, na administração pública, mas sobretudo no comércio internacional", explicou.

Segundo Carol Castiel, a grande maioria dos judeus que se estabeleceu na então província portuguesa de Cabo Verde era do sexo masculino, o que levou a que, com o tempo, fosse assimilado na civilização local, predominantemente católica.

"Era uma comunidade pequena. Hoje, já não existe uma comunidade judaica em Cabo Verde, mas sim descendentes, pessoas que são muito orgulhosas da sua herança judaica, mas que não praticam o culto como os seus antepassados", acrescentou, indicando ser vessa a razão por nunca ter sido construída uma sinagoga no arquipélago.

A mentora do projeto, lançado em 2007, indicou haver conhecimento da presença de judeus no arquipélago numa data anterior à que está a ser analisada, mas salientou tratar-se de judeus convertidos - os "cristão novos" -, que fugiram, assim, à Inquisição portuguesa.

Carol Castiel indicou ser necessário documentar a herança judaica em Cabo Verde - a das famílias Benoliel, Wahnon, Levy, Cohen, Benchimol, Anahory, Benrós, entre outras -, indicando que, dentro de dois anos, será realizado um seminário na Cidade da Praia sobre a presença de judeus em Cabo Verde, de que sairá um livro.

Na cerimónia esteve o conselheiro sénior do rei Mohamed VI, de Marrocos, André Azoulay, presença saudada pelo rabino chefe de Lisboa, Eliezer Shai Di Martino, que, após a celebração da Lei Judaica sobre o enterro dos seus mortos, lembrou a "contribuição de um Estado muçulmano na história do judaísmo num país cristão".

Entre os convidados estiveram também o presidente da Câmara da Cidade da Praia, Ulisses Correia e Silva, e o corpo diplomático acreditado na capital cabo-verdiana, entre eles o embaixador de Portugal, Bernardo Homem de Lucena.

JSD // APN

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