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Julgamento pode abrir "precedente gravíssimo na democracia portuguesa" - Frederico Delgado Rosa (C/Áudio)

08 de Junho de 2011, 15:23

*** Cláudia Páscoa, Agência Lusa ***

Lisboa, 08 jun (Lusa) -- O investigador Frederico Delgado Rosa considera que o julgamento de dois ex-diretores do Teatro Nacional D. Maria II e da autora da peça "A Filha Rebelde pode abrir um "precedente gravíssimo na democracia portuguesa".

"Este julgamento é uma tentativa de abrir um precedente gravíssimo na democracia portuguesa, porque mais ninguém, senão eles, têm o direito de interpretar as fontes, reinterpretar, reescrever a história", sustentou Frederico Delgado Rosa.

O investigador, neto do general Humberto Delgado, falava à agência Lusa a propósito do julgamento de Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira (ex-diretores do D. Maria II) e da autora da peça "A Filha Rebelde", Margarida Fonseca Santos, que são arguidos num processo interposto pelos sobrinhos do último diretor da PIDE, Silva Pais, que os acusam dos crimes de "ofensa à memória de pessoas falecidas" e de difamação, reclamando ainda uma indemnização de 30 000 euros.

Em causa está a peça "A Filha Rebelde" -- baseada na obra homónima dos jornalistas José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, do semanário Expresso, sobre a vida da filha do último diretor da PIDE, Annie Silva Pais -- que estreou naquela sala de Lisboa em março de 2007 e que os sobrinhos de Silva Pais -- Berta Silva Pais e Carlos Alberto Silva Pais -- consideram que atenta contra a "memória, honra e bom nome" do tio e da filha deste, ambos já falecidos.

Para o autor da obra "Humberto Delgado - Biografia do General sem Medo" (Esfera dos Livros, 2006) , Silva Pais, o último diretor da PIDE entre 1962 e 1974, "foi ilibado do homicídio de Humberto Delgado pela justiça portuguesa".

"Porque embora ele tenha morrido antes de ser proferido o acórdão em 1981 - reiterado pelo Supremo Tribunal Militar -, e considerada extinta toda a sua responsabilidade criminal o que acontece é que todos os acusados foram ilibados, incluindo os responsáveis máximos a seguir a Silva Pais", sublinhou.

A título de exemplo de outros ilibados do crime citou nomes de "responsáveis máximos da PIDE a seguir a Silva Pais, como Barbieri Cardoso e Álvaro Pereira de Carvalho".

"Toda a gente foi ilibada pela justiça portuguesa com exceção do autor material do crime, Casimiro Monteiro, que terá tido uma espécie de um impulso homicida e portanto desvirtuado o objetivo da "Operação Outono" que seria apenas, segundo a justiça portuguesa, raptar Humberto Delgado e não matá-lo", sublinhou, considerando "uma mentira" esta versão da morte do "general sem medo".

"Isso é uma mentira, isso foi uma mentira aliás urdida de forma deliberada , um falseamento da história, uma falsificação da História", acusou o neto do general.

"Eu não tenho qualquer espécie de medo da justiça, já uma vez os acusei, quando lancei a biografia de Humberto Delgado, e volto a acusá-los de terem deliberadamente fabricado uma mentira inclusivamente através de uma grosseira distorção da verdade material do crime", observou.

O neto do general voltou a reiterar que o avô não foi morto a tiro", mas sim espancado até à morte.

"Eles agarraram-se a essa ideia de que foi morto por um disparo único de Casimiro Monteiro porque essa foi a forma justamente de dizerem que tudo foi um repente, tudo foi um deslize devido a Casimiro Monteiro e que os outros não tiveram nada a ver com o assunto, nem Rosa Casaco nem os outros elementos da brigada e por conseguinte nem os outros superiores hierárquicos até chegarmos a Silva Pais e obviamente até chegarmos ao próprio Salazar", frisou.

Para o investigador, "o que está em causa é se a justiça portuguesa hoje vai identificar-se com os métodos de distorção histórica deliberada por razões políticas que foram vergonhosamente adotados em 1981 pelos juízes do Tribunal de Santa Clara e se ao fazer isso vai fazer regressar a Portugal o medo" da justiça implantado em toda a comunidade de historiadores, jornalistas, escritores, inclusivamente em adaptações de peças de teatro, de cinema, de séries de televisão, tudo aquilo que tem a ver com o nosso património, o nosso legado histórico relativamente ao que foi a experiência da ditadura e de viver em ditadura e se temos de ficar todos temerosamente calados e aceitar como verdade uma mentira".

A sessão do julgamento marcada para hoje, no Tribunal de Lisboa, prevê a continuação da audição de Berta Silva Pais, sobrinha do último diretor da PIDE, e de Basalisa Gomes, a única testemunha de defesa arrolada pela família de Silva Pais.

CP

Lusa/fim


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