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“O contador de histórias deve sobretudo ser honesto”

20 de Setembro de 2010, 11:50

Rafo Diaz é um artista peruano multifacetado: faz teatro, ilustrações, escreve contos, pinta e conta histórias. Recentemente editou “O mar de Maputo”, um livro para o público infantil que teve o patrocínio da cooperação espanhola e a particularidade de ser bilingue, Português e Changane. SAPO MZ falou com ele na véspera da sua actuação este sábado no teatro Casa Velha. 

(SAPO) - Quem é Rafo Diaz?
Rafo Diaz (RD) – Sou um artista multifacetado. Dedico-me ao teatro, escrevo contos, conto histórias, faço ilustrações e também pinto. Toda a minha vida tem sido feita à volta das artes.

 (SAPO) – Estás há quanto tempo em Maputo?
(RD) – Há cerca de dois anos. Desde que cheguei comecei logo a fazer trabalhos na área da narração oral, primeiro na semana do livro há dois anos e depois comecei a fazer workshops.

(SAPO) – Qual é a origem das histórias que normalmente contas?
(RD) – São histórias de tradição oral, de várias partes do mundo como o México, Bretanha, Brasil e a última “O mar de Maputo” é de Moçambique. Esta última imaginei mais para contá-la oralmente do que para colocá-la em livro. Mas depois pensei que era bom escrevê-la e ilustrá-la para completar uma intenção de me aproximar do público do Maputo. Neste livro, e isso foi curioso, estivemos todos [cooperação espanhola, a financiadora da obra] de acordo que este livro ganharia se fosse bilingue – Português/Changane – uma vez que o changane já possui uma estrutura gramatical. Este é o primeiro livro bilingue nestas duas línguas. Isso já é muito importante (risos).

(SAPO) – Como é que nasceu este teu gosto de contar histórias?
(RD) – É um gosto que tenho desde criança. Nasci no mato, na Amazónia peruana, e cresci num local habitado por espíritos, fantasmas e coisas estranhas. O meu pai contava-me muitas histórias. Mas o que fiz, essencialmente, foi recuperar essas histórias de infância de uma maneira mais profissional. Mas a minha formação em teatro foi também muito importante porque consegui criar estruturas criativas que agora utilizo nas minhas histórias. Nesta fase encontro-me a visitar países do mundo. Já estive em 18, alguns deles africanos como o Congo, Camarões, Burquina Faso, Senegal, etc.

(SAPO) – Quais são as principais características que um contador de histórias deve ter?
(RD) – A honestidade é a principal. Precisamos de ser honestos porque trata-se de um contacto directo com a assistência, bem diferente do teatro. Aqui está-se a olhar bem nos olhos das pessoas, eles participam. Contar é como conversar, é uma coisa muito familiar. Depois vêem outras coisas mais estruturais, mais técnicas, muito ligadas ao teatro como colocar a voz, interpretar várias personagens, trabalhar as máscaras do rosto, a expressão corporal, interacção com o público, tudo faz parte de uma preparação.

 (SAPO) – As crianças são mais fáceis de sacudir na cadeira.
(RD) – Não, pelo contrário. As crianças são muito espertas, quando não se está em harmonia com elas são bem más. São mais exigentes porque se não gostam dizem logo. Vi muitos contadores de histórias a abandonar o palco a chorar. Não conseguiam captar a atenção delas.

(SAPO) – O que se deve fazer então para sacudir as crianças?
(RD) – Deve-se sorrir-lhes. Olhá-los, contar-lhes olhos nos olhos a história. Com elas tenho sempre desafios. Quando são muito pequenos digo-lhes que não sei se vão conseguir entender a história e esse desafio torna-os mais atentos, capta-lhes a atenção. 

Cristóvão Araújo

   

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